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Como matar jovens poetas - conto de Marcos Samuel Costa

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(para Gigio Ferriera e Ana Meireles)
Como acabar com os jovens poetas 
Rondônia é um Estado de muitos talentos. Vários romancistas e poetas de gerações novas e antigas. E dentro de uma família de posses e fazendas, nascia Vânia Romeiro, filha do romancista Bastos Romeiro. O velho pai com muitos livros e praças com seu nome pela região. A filha, poeta e ativista das redes sociais se mudou para São Paulo, lá viveu a vida inteira. Mas sempre fora a voz telúrica e onírica da floresta. O grande símbolo, o pássaro raro com canto avassalador, mesmo que sem nenhum talento. Mas o tempo passou e a fez uma velha poeta, uma voz seguida entre o caos pelos jovens poetas. Tinha respeito tanto no Sudeste quanto no Norte. Porém, se não bastasse o envelhecer, algo mexia ainda mais com seus distúrbios mentais, que cedo foram observados pelos tios e professores na escola. Seu pai ainda lhe levou ao médico e fora mandada para o psiquiatra, foi quando começou os seis comprimidos por dia e os eternos poemas d…

Qualquer coisa que tenha vida - conto de Marcos Samuel Costa

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Silas, estive pensando na foto que tu me mandaste ontem, do aquário. Não me distes que tinha acabado de comprar, mas eu sabia que não tinhas um aquário em sua casa. Sei poucas coisas sobre ti. Mas saberia sobre ter um aquário, assim como sei de sua cachorra de meia idade chamada de Leitoa. Ela faz jus ao nome, grande, pesada e quase redonda. Pelos brancos com manchas pretas. Queria ter te dito Silas, o quanto odeio animais presos. Ainda a pouco vi meu vizinho saiu para o trabalho, vestia um macacão azul, o que usa no trabalho, estava com uma gaiola na mão. Sinto como algo tão triste e ruim. Mas não te falei nada. Mal te conheço, não sei como irias receber minha opinião. Nossa única forma de amar é virtualmente. Vi poucas vezes tua nudez. Não sei como respiras – por exemplo, quando entras em orgasmo. Não faço ideia de como seja tua voz ao amanhecer. A minha é roca, grave. Eu vejo tua barba por fotos, queria te falar também, mas falta coragem, faça-a melhor. Tudo isso nos aponta para al…

Depois tudo terminou - conto de Marcos Samuel Costa

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Depois tudo terminouA primeira imagem que guardei do Jotta foi do seu rosto pintado, seus braços tingidos, de todo seu corpo que parecia única imagem. A ternura do riso. Eu chegava mais próximo, calado, mas cada vez mais próximo dele, encostava minha sombra sobre dele e lhe olhava quase que pateticamente por um todo. Sentia naquele momento o que tinha de mais sensível. Não fazia ideia do que cada traço queriam dizer sobre seu corpo, mas me diziam algo. A pintura do seu corpo. Como ondas que batem nas írises dos olhos e vão nos cegando. Jogando para baixo de uma intensa vertigem nublada. Tintas que riscava sua pele de maneira suave e brutal. Foi logo pela manhã, quando a luz do dia ainda se arriscava sobre a cidade. Cheguei no aeroporto que prestei atenção nele. Jotta passava o tempo todo no telefone. Falando oras em português e oras em sua língua. Aqui encontro, o nascimento da primeira lembrança que hoje guardo dele com um pouco de raiva, saudade e desejo – feito um jogo de perdas, g…

O mundo é lá fora - um conto de Marcos Samuel Costa

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fora é São João, é junho. Respinga, mas não chove tanto como em janeiro, fevereiro, março e abril. É junho. O carro-som passou cedo, acordou os vivos. Lembrava numa reza tênue o santo, o seu dia. Lembras do teu primeiro beijo, Andrei? Como foi? O meu fora em junho, em São João, festinha da escola. É junho, tanto tempo depois de setembro do ano que passou, mas ainda lembro de ti, da nossa separação, dos enganos e das traições. Como foi amar outro ainda dizendo me ama? Muitos dizem que é possível amar mais de uma pessoa, acredito nisso, mas amei só tu. Acredito que tua tristeza quando eu partir era real. Que todas tuas mensagens no meu celular relatando sofrimento, são reais. Vindas do coração. Das tardes que passamos juntos e das madrugadas de amor e desejo. Aliás, nem faz tanto tempo assim, apenas nove meses que nos deixamos. Há em tudo nosso: muitas memórias, um corpo vivo de afeto. Desculpa, mas eu tive que fugir. Aceitar esse trabalho de professor aqui. Coisas piores, ou não, ap…

Caio - conto de Marcos Samuel Costa

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Caio (para ler ao som da voz the Billie Holiday)
Caio apareceu de repente numa noite de solidão e desamparo. Minutos antes ele era apenas um perfil desconhecido no Grindr, na discrição dizia: a fim de uns beijos. E os beijos de Caio eram tão bons, tão profundamente bons e salientes. Com pouco tempo deitaria comigo na cama. Tudo rápido. Sua foto mal aparecia. Não tinha como ter uma ideia mais firme de sua beleza. De como seria o rapaz que iria encontrar. Não esperava nada, mas esperava tudo. Trocamos mensagens, falamos num encontro. Para quando? Agora, ele disse, agora. Eu também queria agora, o mais rápido possível, não sei qual é essa urgência que tanto se sente. Deixo ao lado o livro que estava lendo, de um escritor americano. Caio envia: “Vou comprar alguma coisa para meu irmão jantar e te mando mensagem, ok?”. Lhe respondo: “Ok, tempo que tomo banho também. Fico esperando tu mandares mensagem”. Tomei meu banho. Lavei meu saco, depilei um pouco a vasta solidão alta em mata. Tirei o …

Ele veio comigo - um conto de Marcos Samuel Costa

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(fonte: google)

Ele voltou comigo

A cidade era de concreto. De prédios. De infinitas ruas. Rios mortos. Era a primeira vez que via um rio totalmente morto. Mas não eram apenas águas que morriam, as pessoas também. Água morta matava ao se encontrar com a água viva da chuva.  Poucos dias antes, tudo era caos e águas sujas matando a cidade. Um céu cinzento sem qualquer tonalidade azul. O dia se alongava um pouco mais. Ainda assim, tudo era cinza. São Paulo caiu em meus olhos como um mar. Água e sal. Assim, todo cheio de violência. Todo agitado. Cheio de cores, mas do céu para baixo. Algo me dizia, a noite vai ser tua. Tua e não dele. Eu acreditei, ou queria acreditar. Por onde se passava, podia se ver pessoas fantasiadas, indo ou voltando dos bloquinhos. Minha fantasia pesava. Demasiadamente pesada. Minha fantasia de uso cotidiano que muito serviu naquela cidade. Porém, ao mesmo tudo que tudo era cinzas e águas sujas, tudo era vida e flores raras. A cidade entoava de suas profundezas um …

Natal - Um conto de Marcos Samuel Costa

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Natal
Ele estava aqui. Uma carta se estende no labirinto. Foge ao vento. Como um passo cansado de uma ave em voo. São sempre estas lembranças que adentram a porta, chegam até meus pés, sobem o corpo. Tocam o coração. Faz da mente um cansado filme de cenas lentas. O vejo em dois, tempo e realidade. Seu sorriso largo na nossa última e única viagem. Rumo ao sol, as praias. Ele estava ao meu lado. Me abraçava com muito afeto, a noite quando deitamo-nos para dormir, ele me agarrava e envolvia com seus braços, era seu hálito doce e humano a essência da minha vida. Toda a essência. Como flor e vida um jardim que amanhece em cores vivas. Caminhamos na Praia do Paraiso, as pedras tocavam nossos pés, o sol nos banhava primeiro, e ele ao lado. Grande e negro. Um sol. Uma carta se queima ao fogo. E era noite. Luzes apagadas. Deitamo-nos na cama. Nossos lábios demoraram a se tocar. Eu lhe via como uma imagem vasta, mas de pura solidão. Já tinha passado três meses desde que terminamos o namoro. Viv…