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O profundo - conto de marcos samuel costa

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Celton passou o resto da manhã sozinho. Foi apenas no centro comprar alguns alimentos. Mas logo voltou para sua casa, sua solidão. Ficou folheando umas páginas envelhecidas, revirando a memória e com um peso deitado sobre as lembranças. Não deixou partir o quem deveria ter partido de manhã, logo cedo com a viagem do barco. Ao contrário, deixou em si uma presença impossível. Como as sombras dos pássaros que ficam quando eles longe já voam. Seja por seu lado mais humano, seja pelo amor que ainda era capaz de sentir, deixou. Na noite de quinta-feira da semana que passou, Celton ligou para Pedro, depois de muitos dias, aliás, depois de meses de silêncio. Aquele início de conversa duro. Como se procurasse palavras, motivos, algo que ajudasse com que as coisas avançassem. Eram mais de oito horas da noite, as janelas da sala estavam abertas e vinham muitos barulhos da rua. Não tinha mais ninguém na casa além de Celton.  – Alô, Pedro? – Oi, sim, sou eu Celton! – E aí cabeção – Celton falou te…

Três poemas de Marcos Samuel Costa

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(Picasso)
Outros barulhos 01

aonde vou
e onde chego
é por causa do barulho,
fujo de mim, do tempo comigo,
das horas silenciosas que tenho
que me encarar
olho osso por osso
vejo a carne pesar sob pedras
do meu deserto triste e longo
(Ele mora entre
minhas
orelhas
debaixo dos meus
cabelos)
Na sexta-feira que nasce,
busco o barulho,
a morte da paz.
Sinto medo de ter que falar comigo,
de dizer: não morra, ame outra vez!
deixe esse sofrimento e veja a luz na porta,
os dados rolam no chão da sala,
entre livros, ratos, filmes,
relatos e poeira.
Sinto medo de me perguntar com revolta: mas tu sabes a dor que sinto?
E com desânimo responder: sei.
Por isso vou ao barulho,
ando tão abismal.

Estou longe

Ando longe daquele que eu dizia amar,
longe de um amor, então,
longe de uma morte,
longe de uma dor,
minha casa fica fora do continente.
Faz sol, a luz chega
antes da estrela maior
no horizonte,
é calma essa brisa
feito fumaça na mesa,
as mãos frias
É calma essa lembrança
que faz sofrer,
como gato q…

Quando os cavalos chegaram - conto de Marcos Samuel Costa

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“He, the trained spy, had walked in trap For a bogus guide, seduced by the old tricks.” W. H. Auden

Os dois cavalos cresciam rapidamente. Ganharam peso, força e brilho nos pelos. Agilidade. Corriam no pequeno campo improvisado. Os dois cavalos cresciam. Expandiam-se para a vida íntima de todos. Comprá-los era um sonho antigo. Que germinava nele desde época que Flávio era apenas um garoto.
Quando pequeno ia com seu pai ver as corridas de cavalos marajoaras no bairro do Mutirão. Aconteciam em dois momentos no ano, o primeiro dentro das comemorações do aniversário de sua cidade e o outro, no período do verão alto. Gostava mais do segundo, quando o sol das cinco da tarde ainda iluminava violentamente o dia. O calor era grande, mas não precisavam se preocupar com as chuvas, e isso lhe aliava. A imagem dos cavalos a correr mexia com seu coração. A poeira a ser levantada pelas esporas dos cavalos e o desejo pervertido em imagens sensuais do menino também. Parecia que a qualquer momento eles c…

Dois e não um - conto de Marcos Samuel

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(fonte google)
- estou perdido.
- mas onde queres chegar? tinhas local almejado?
- sim.
- tinhas né, foi o que imaginei, tu sempre foste ambicioso.
- isso é um problema?
- sei lá, sei lá cara, isso é contigo?
- comigo?
- olha, da tua vida só tu toma conta, pelo menos teria que ser assim, teoricamente.
- teoricamente. não te falei a metade.
- começa.
- de qual parte?
- de qualquer parte, desde que te alivie.
- alivio...
- vamos caminhando? 
- vamos.
- o rio tá com a maré cheia.
- vamos pela beirada.
- vamos, mas começa.
- tem fracasso no meio, ah, no começo também.
- ainda bem que ainda não chegou o fim, ainda podes modificar. 
- modificação, como areia movediça.
- areia movediça, como areia movediça no coração. não te falei, mas a faculdade anda uma droga, ando com medo, sinto vontade de me matar. 
- não se mate.
- não sei se vou.
- melhor não se matar, não torne breve essa brevíssima vida.
- como um fosforo acesso. 
- como o pouco combustível. 
- um fosforo.
- numa noite de escuridão.
- como noite, como noite.
- v…

Há uma dança

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“O teu nome está inscrito na parte mais úmida de meus testículos suados” Ferreira Gullar

Fazia um frio extremo na madrugada, aliás nem estava tão frio assim, era a sessão de ser madrugada. Eu estava pronto, vestido com uma bermuda e camisa branca, sapatos velhos. Assim saia de casa. Estava escuro, só com uma pequena luz vindo lenda no horizonte. E deus o perdoava. Dentro da noite fazia uma chuva escura. Choveu em tonalidade fatais, mas naquele momento o céu estava estrelado. Os dentes se batiam uns contra os outros. Tremia-se, fremia-se. Não era pelo frio, era por outra coisa, que nem ele conseguia dizer o que era. Saiu cedo, levantou com a decisão de nunca mais voltar. Próximo de completar os três anos que saíra de casa. Desistirá da procura da permissão de Deus, de seu consentimento, de início seus afetos eram verdes, sonhava em morar noutro país. Imaginava as coisas mais simples e descrevia num caderno marca d’água seus relatos e planejamento. Tudo. Nada era dele naquela chuva. Do es…

A frutífera juventude - Conto

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(para alguém que amei)

"Nada em mim foi covarde, nem mesmo as desistências: desistir, ainda que não pareça, foi meu grande gesto de coragem."
Caio Fernando Abreu




Os amigos estavam reunidos. Um dia de praia. Casa na praia. A praia ao alcance de nossos pés, de nossos lábios, desejos animalescos e frenéticos. No quintal da casa-de-praia muitas árvores. Ele estava lá, e eu o ama. Uma piscina suja e cheia de folhas podres e imundices. Éramos tão jovens e cheios de desejos. A casa era grande, vários quartos, sala, banheiros nos quartos, cozinha e sala-de-jantar, muitas plantas, vasos e orquídeas. Vento forte, dia nublado, pouco sol, maré-baixa. Ele estava lá e eu o ama com uma saudade estranha, uma dor quase que suave, mas ainda assim, dolorosa. Levava meus olhos até os lábios dele, quase roxos, salientes e vivos. Eu desejava seu rosto de índio, sua pele parda, cabelo ralo e liso. Na pele da areia. Nos pelos do segredo. Quarto silencioso. Debaixo do short, a sorte. A fruta. Bananas e…

um dia de praia

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navegava 
os passos faziam algum som no silêncio. ele acordou. os passos faziam um imenso barulho no não silêncio. acordado, levantou. limpo os olhos, lavou as memórias ruins na água corrente e parou diante do passarinho que batia no vidro da janela do banheiro. o passarinho é amarelo e cinza, um bico pequeno, asas bonitas e lhe olha com estimulo. ele imagina que o passarinho não percebeu o vidro. o barulho da batida foi alta, incomodou, ele resolveu espantar o passarinho com sua toalha, vermelhas, com pequenas manchas de água sanitária. os passos se silenciam. os olhos de sua surpresa acendem flores ao acaso. 
navega 
os passos são de Pedro. Pedro ama ele. Pedro erra todos os dias e pede perdão. Pedro lhe penetra o corpo com gozo e amor, sexualidade e dispersão. Uma música toca em seu mais íntimo pensamento, pensa em pedras, uma rocha lhe risca a turva visão. um besouro preto anda no tapete da sala, e na antessala outro inseto passeia distraído.
          navegação   Ele escova os dentes.…