Dimensões do amor - crônica de marcos samuel costa
Nossas
almas se tocavam como brisas, levíssimas, flutuavam. Sentamos diante do cenário
perfeito; à mesa, café nas xícaras, os ruídos da tarde anteviam o seu fim, o
nosso fim; o aroma tomava para si a cozinha e a nós mesmos; eram as horas que
passávamos juntos, lutávamos contra o tempo, eu e ela.
Sabíamos
o diagnóstico, mesmo que nada fosse dito; sabíamos que o tempo era pouco. Eram
muitos remédios ao longo do dia, muitos cuidados, um silêncio que quebrávamos.
Era
com minha mãe que conversava sobre o que por dentro doía, para ela que contava
os meus sonhos, planos e medos (depois de algum tempo, passamos a falar tudo).
Sonhávamos juntos em construir uma nova casa, nos mudarmos do Campinho, ir para
a terra firme, ter um grande jardim, plantas que, em novas terras, germinassem.
Era como se tivesse caído “o muro” que estava entre nós. Amar faz as barreiras
caírem.
Éramos
reais um para o outro em nossas imperfeições.
Falávamos
sobre quase tudo, em especial sobre as plantas, receitas, comidas e tristezas.
Era nosso alento. Sonhar sempre ajudou a acalmar os mares agitados. Lembrar do
pai, da minha avó, do que ficou no passado e passou a morar no presente em
memória.
Numa
das nossas últimas conversas em casa, falávamos sobre nós. E ela me disse que
muitas pessoas de sua convivência comunitária, igreja e bairro lhe questionavam
sobre minha sensualidade, como ela ainda conseguia conviver comigo e me amar.
Ela me falou uma das respostas que deu nessas situações. Mãe disse à pessoa: “É
meu filho e eu amo”. Curta e grossa como sempre foi, valente.
Fiquei
esses dias pensando nas condicionalidades que algumas pessoas colocam no amor.
Uma mãe tem a obrigação apenas de amar um filho que esteja na
heteronormatividade? Claro que não, sabemos. Mas ainda é difícil para algumas
pessoas entender que amar também é sair de dentro das certezas absolutas, do
conforto e enfrentar o confronto.
O
outro, a quem amamos, por assim dizer, é tomado/constituído por toda a sua
subjetividade. E amar, esse querer que envolve a entrega, a compreensão e a
atenção, precisa de coragem. Fiquei pensando quantas mães por aí têm que
suportar isso, esses comentários chatos de pessoas mal resolvidas.
Outro
dia, na sessão de terapia, comentei com meu terapeuta que sou adotado; ele
ficou assustado. Tantos anos de convivência e eu não tinha lhe dito isso.
Expliquei que isso em casa sempre foi bem resolvido, não era uma “questão” para
trabalhar na terapia, mas estávamos ali, diante do que não era e que, por algum
motivo, “se tornou” uma “questão”.
Digo
isso para comentar que, muitas vezes, na escola, os funcionários tratavam minha
mãe como avó. Coisas do tipo “a sua vozinha isso”, “sua vozinha aquilo”. E eu
explicava: “Ela é minha mãe”. Minha mãe, mãe.
Nunca
vesti essa fantasia de que minha mãe poderia ser minha avó. Ela me amava e eu a
amava, era o suficiente. É o amor, o amor é isso: não uma escolha, mas talvez
algo como ser resolvido quanto ao que amamos. E, de alguma maneira, enfrentar
resistências.
Marcos Samuel Costa nasceu em Ponta de Pedras/Marajó/Pará. É de origem ribeirinha. Foi finalista do Prêmio Mix Literário em 2021 e 2023. Venceu o Prêmio Dalcidio Jurandir 2019 e foi semifinalista do Prêmio Oceanos 2024. Livros publicados: Dentro de um peixe (Romance, ed. Folheando 2019), O cheiro dos homens (IOEPA 2021), No próximo Verão (poemas, ed. Folheando, 2021), Os abismos (poemas, ed. Folheando, 2022), Os desertos (poemas, ed. Folheando, 2023), Os vulcões (poemas, ed. Folheando, 2024), Sol forte na pele (contos, ed. Folheando, 2023) e Óculos escuros (contos, ed. M.inimalismo, 2024). Além disso, mantém o podcast “Paisagens”. Faz parte da antologia "Homem com homem: poesia homoerótica brasileira no século XXI" com organização de Ricardo Domeneck (ed. Ercolano, 2025).


Comentários
Postar um comentário