O voo

by marcos samuel costa, antes da morte, colagem, 2026
O voo saiu com apenas
dois minutos de atraso. Os funcionários fizeram aquele cansativo gesto ensaiado
sobre o que fazer em emergências, pediram para pessoas colocarem em seus pés
bolsas e mochilas. Um ou outro passageiro sempre ignora, e os funcionários precisam
solicitar que baixem bolsa ou mochila para os seus pés. Lauro sentou-se na
poltrona do corredor, estava cansado, pegou o tapa-olho e esperava com certa
ansiedade que o voo alcançasse altitude e pudesse dormir. O piloto deu as
boas-vindas e falou do trajeto que faziam. Manaus-Belém com escala em Santarém.
Lauro desceria apenas em Belém.
Chegou
no aeroporto uma hora e meia antes do voo. Lauro nunca gostou de chegar em cima
da hora em compromissos como esses. Sentou, pegou o livro que estava lendo, uma
pequena reunião de contos de Nabokov intitulado “Perfeição”, ficou distraído lendo,
esperando ser anunciado o embarque do seu voo. Comeu antes, para não ter que
comprar nada no aeroporto e estava com sua garrafinha de água.
Esteve
um pouco mais de uma semana em Manaus à trabalho. Trabalhava em uma produtora
cultural e estava dando suporte em dois projetos cinematográficos de dois
proponentes indígenas. Ambos iriam produzir documentários sobre a vivência de seu
povo. A equipe era boa, o diretor era local, com bastante trabalhos. Tudo indicava
que os resultados seriam bons.
Os
dias que passou em Manaus foram bons, apesar do calor. Saiu com alguns caras e
fodeu com dois deles. Os encontros que começavam chatos não avançavam para o
quarto de hotel onde estava hospedado; acabavam ali, mediante alguma desculpa
ou uma curta despedida. Apesar de o sexo ser muito importante e de ter sempre
muitos desejos, homens chatos não estavam valendo a pena. Era o que Lauro dizia
ao amigo. Além dele, um outro colega de trabalho também estava, mas em quarto
separado e ocupado com outras coisas. Lauro foi basicamente para ajustes
orçamentários, planejamento de gastos e para a criação de uma tabela de
pagamentos, considerando médias nacionais e regionais. Ou seja, muito trabalho.
Seus
dias de trabalho geralmente adentravam a noite, por isso gostava de passar em
algum barzinho. Sempre pedia a cerveja puro malte mais gelada que tivesse,
tomava sempre uma de seiscentos sozinho e comia alguma coisa, ali mesmo ou em
outro lugar. Estava caminhando para os quarenta anos, com hábitos cada vez mais
solitários, e em uma cidade que não era sua, ainda mais solitários. Não gostava
de sair com as pessoas das produtoras, no máximo algum almoço. Gostava de ter
sua vida privada bem protegida, ainda mais considerando os vários problemas que
teve ao longo da vida por confiar nas pessoas.
O
voo alcançou altitude, as luzes foram apagadas, colocou o tapa-olho e, por
sorte, não sentou nenhuma criança perto dele para que pudesse ficar fazendo
barulho. Mal olhou para a pessoa ao lado; era uma jovem senhora, parecia ser
alguma executiva pelas roupas. Lauro estava com uma bermuda e uma camiseta do
Remo, tênis e um relógio no pulso. Tentou dormir, mas o sono ainda demorou.
Em
certo momento acordou, abriu os olhos e tudo estava parado, porém, é normal em
um voo poucos movimentos. Quanto a isso, não teve estranhamento algum; ficou
quieto também, esperando que seus olhos se adaptassem à luz, colocou os óculos.
Porém, os minutos passaram e nenhum movimento, nenhum som. Então estranhou,
sentiu algum susto e pensou que poderia estar sonhando. Um sonho, porém, ao
tocar em seu próprio braço, sentiu-se, ou seja, não poderia estar dormindo.
Então se levantou. Tocou em um idoso que estava sentado um pouco mais à frente,
e, apesar de o sentir, ele não se mexeu. O idoso estava com os olhos abertos,
no entanto, sem nenhum movimento. Ainda manteve alguma calma, tocou em mais
pessoas e nenhum movimento.
Então
brandou: “Que porra é essa?” E nem ao seu grito ninguém respondeu. Caminhou até
o comando; o piloto também estava lá, mas sem nenhum movimento. Era como se até
o avião estivesse parado no ar quando olhou para fora. Nuvem nenhuma se movia e
o que via era o mesmo, um distante campo verde impossível de se identificar.
Estava ficando nervoso. Suas mãos começaram a suar. Não parava de pensar em voz
alta, se perguntava: “Que merda é essa já?”, “O que está acontecendo?”. Então
uma neblina começou a tomar conta do ambiente; tudo aos poucos foi ficando
claro e denso, como em um compasso longo e agudo. Lauro se sentou no chão do
avião; estava em pânico.
Lauro
enfim ouviu um barulho, era um zumbido estridente que lhe fez a cabeça doer. Então,
tudo se encheu de um total branco, com uma nevoa quase denso. E não importava
para onde andasse, tudo era claridade, um branco profundo que parecia afundar
seus olhos para dentro de sua alma, sentou no meio daquilo e pareceu que
entendeu do que se tratava.

Comentários
Postar um comentário