Diários: adoecer é um abismo longe

 

abismo, marcos samuel costa, 2026, colagem 

07 de setembro de 2026

 

Estou bem, aliás, estou melhor. Tendo me sentido um pouco melhor. Com os problemas de sempre para dormir, vez ou outra a insônia e as crises de ansiedade atacam, porém, no geral, melhor. Isso é bom, pois, com o passar do tempo, vamos nos acostumando com o sofrimento, com o estado de mal-estar, com as crises, e chega a um momento tão estranho que parece que ela faz falta, de tanto que ela parece próxima. Ontem passei o dia com diarreia, quieto em casa e lendo; à noite, produzi algumas colagens. Gostei no geral, apesar de nunca considerar ou acreditar que elas estejam chegando a um lugar ou resultado “bom”. Parece que todas as minhas colagens ainda estão num campo de criação estável, entre o comum e o básico, ruim e normal. Não falo por autocensura, mesmo sendo ótimo em me colocar para baixo; é por considerar mesmo isso.

Hoje vou continuar os estudos do curso sobre adoção. Ontem à noite olhei a casa e vi o tanto de coisa que ainda é preciso reformar, melhorar, tanta coisa por fazer, e estamos nesse processo. Talvez sim, essa seja a maior loucura da minha vida. Mesmo diante do meu orgulho, posso dizer que esse curso introdutório tem me tirado de algumas posturas errôneas que estavam formuladas em mim, como adotar por caridade e afins.

Não paro de pensar em algo que minha irmã me disse quando falei sobre a adoção. Pois ela não apoiou de imediato. Depois de ter falado tanto sobre ter um sobrinho, reclamei disso, ela me falou: “Nunca vi tu fazeres algo que tu não quisesses”. Realmente isso é algo forte em mim, e quando faço algo que não quero, dentro de mim estou uma merda. Não paro de pensar sobre esse filho, sonho com ele, sem face ainda, sem rosto ou detalhes, mas consigo imaginá-lo conosco. Fazendo parte da nossa vida. E que louco é isso.



Marcos Samuel Costa nasceu em Ponta de Pedras/Marajó/Pará. É de origem ribeirinha. Foi finalista do Prêmio Mix Literário em 2021 e 2023. Venceu o Prêmio Dalcidio Jurandir 2019 e foi semifinalista do Prêmio Oceanos 2024. Livros publicados: Dentro de um peixe (Romance, ed. Folheando 2019), O cheiro dos homens (Romance, IOEPA 2021), No próximo Verão (poemas, ed. Folheando, 2021), Os abismos (poemas, ed. Folheando, 2022), Os desertos (poemas, ed. Folheando, 2023), Os vulcões (poemas, ed. Folheando, 2024), Sol forte na pele (contos, ed. Folheando, 2023) e Óculos escuros (contos, ed. M.inimalismo, 2024), Saltos ornamentais (Romance em versos, ed. Primata, 2025), Perfeito conjunto findável (Poemas, ed. Ofícios terrestres, 2026).

 

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