A pior lembrança que poderia guardar - conto de marcos samuel costa
Aquela
última foda na praia foi horrível, a pior lembrança que poderia guardar de um
amor. Estávamos na casa de uma amiga, uma casa grande, toda avarandada; os pais
dela estavam dentro dos quartos, ficamos na varanda com as redes atadas. Foi a
primeira vez que fui dormir ali com eles. Havia combinado com o Edu de ir
buscá-lo na cidade depois que ele saísse do trabalho.
Fiquei
atento ao celular, esperando-o avisar. Seriam cerca de treze quilômetros de
estrada. Uma estrada escura e sem movimentação; não era medo que sentia, mas
certa preguiça de dirigir tudo aquilo. Mas, como queria muito o ver, o beijar,
ter sua presença, voltei até a cidade.
Edu
mandou uma mensagem, então voltei. A noite estava clara por conta do luar; os
campos na beira da estrada pareciam graves e profundos. Aumentei a velocidade,
não encontrei mais nenhum motorista no trajeto. Vi movimentações quando passei
por duas vilas que ficam no caminho.
O
peguei na esquina da rua da casa dele. Estava sem mochila; logo pensei se ele
não entendeu que dormiríamos na casa da Lene. Nem deu tempo de eu perguntar,
ele disse logo: “Vais me trazer mais tarde, não vou dormir lá”.
Fiquei
calado, não quis me aborrecer de cara, saímos, acelerei a moto. Quando
estávamos no limite da cidade, lhe disse que não iria voltar para a cidade para
o deixar.
Naquele
momento, começamos a primeira discussão e o clima mudou. Chegamos na Lene,
comemos algo que levei, e ela sugeriu que descêssemos para a praia para termos
um momento a sós. Passavam da meia-noite, a maré estava baixa, a praia estava
clara por conta do luar; havia um grupo de jovens, mas distante o suficiente
para termos privacidade.
Estávamos
com uma garrafa de vinho tinto que eu havia levado; tomamos na boca da garrafa.
Tomamos todo o vinho, ficamos sentados olhando a noite. E ele voltou com o
assunto sobre voltar, de eu ter que ir levá-lo de volta. Eu, fatidicamente,
dizendo que não. Então ele me disse: “O pai da Lene me conhece do Caminho, ele
não pode saber que me relaciono com homens. Já viajei com ele para um evento do
grupo em outra arquidiocese.”
Disse
que entendia e respeitava, que o pai dela não precisava ver nada nem saber de
nada. Mas não voltaria para a cidade, muito menos para o deixar.
Grande
parte da minha resistência foi por conta da oportunidade de dormir na casa de
praia da Lene; por conta das muitas atividades que eu estava envolvido, nunca
podia, mas naquela noite deu tudo certo e pude ir. Mas não queria ter o
trabalho de explicar isso a ele.
Conhecíamo-nos
há alguns meses e ficamos naquele difícil impasse entre não ter nada e já estar
tendo alguma coisa. Edu sabia o quanto eu estava apaixonado e, apesar de ele
ser mais velho que eu, ele queria curtir. Saía muito para beber, dançar,
cheirava cocaína e não tinha responsabilidade alguma com seus compromissos.
Vivia sendo demitido dos locais onde trabalhava.
Eu
estava apaixonado e não me importava com esses detalhes. Havia acabado de
sofrer uma grande perda. E viver aqueles momentos com Edu anestesiava a dor.
Não fazia as mesmas coisas que ele fazia, mas aproveitava sua companhia e a dos
seus colegas. Estava, além de apaixonado, perdido.
Mas
as coisas foram se degradando, de pouco em pouco. Edu era grosseiro demais
comigo, não sabia o limite do tratamento, aliás, limite algum. Tudo era muito
intenso para ele. Um sagitariano nato que ficou preso em algo como uma eterna
juventude.
O
vinho acabou, começamos a nos beijar. Edu ficou sentado de frente para o mar, e
eu de frente para ele. Ele estava e não estava ali, não sentia algo muito
recíproco. Falou novamente em ir deixá-lo na cidade; falei que não, com tom de
aborrecimento. No entanto, estava bom aquilo que fazíamos ali.
Tiramos
a roupa, senti certa vergonha, mas estávamos numa parte escura entre coqueiros.
Edu colocou a camisinha, me virou e meteu. Falei que estava seco, ele disse
para eu parar de frescura. Esperei ele gozar, mas não senti nenhum prazer;
sozinho, me masturbei até gozar. Ele esperou, então fomos para dentro d’água.
Senti
que ele havia me machucado; aquele sexo foi tão ruim. Nos quase três meses que
estávamos nos conhecendo, não havíamos consumado o ato, sempre ficávamos nas
preliminares, mas por conta de falta de local ou por ele sempre acabar a noite
estúpido de bêbado. Então, aquele último, primeiro, sexo passou a ser um gosto
amargo na minha memória.


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