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| by marcos samuel costa |
Na mesa da cozinha de Vitorio
Naquela noite perdi minha virgindade, eu tinha apenas dezesseis anos.
Naquela noite, tivera acabado de voltar do culto, mas a chuva me pegou antes
que eu pudesse chegar em casa e, com isso, tive que ficar abrigado na frente da
casa de um vizinho. Um vizinho que morava na mesma rua que eu. Mas no início da
rua, longe de casa. A chuva foi se avolumando, aumentou tanto que tive que
descer da minha bicicleta e entrar na casa dele. Ali procurava a proteção, mas
não apenas isso, eu poderia ter ido para casa na chuva, alguma coisa me prendia
ali, de forma quase magnética. Queria arredar os pés, mas ao mesmo tempo não. Poderia
ter pedido uma sacola, guardado a minha bíblia para não molhar e ido para casa.
Perder a virgindade naquela época era quase uma corrida contra o tempo,
meus amigos, de forma quase indireta, concorriam entre si quem perderia
primeiro. Falávamos apenas disso, o tempo todo. O sexo ocupava um lugar
central, mesmo que não o praticássemos com frequência, ou nunca o tivéssemos
praticado, não importava, a possibilidade era o suficiente. O primeiro a perder
a virgindade foi o Kaio, ele fez sexo com uma garota da escola. Ele nos contou
logo no outro dia que haviam transado na escada de um trapiche à noite. E,
sendo ele, a posição em que ficaram foi incômoda, nada muito prazerosa. Uma
experiência estranha, mas o que importava estava feito, pelo menos era assim
que se pensava naquele momento.
Estava na sala da casa de Vitorio, fiquei na porta, quase dentro, mas
ainda com parte do corpo fora. Ele era muito simpático, não disse nada, porém
me fazia sentir à vontade. A energia elétrica caiu por conta da tempestade, e
estava ali, na sala da sua casa dele, e, por acaso, ele estava sozinho, nós
dois, ali, sem luz, muita chuva. O conhecia de vista, sabia seu nome, que
trabalhava com vendas de fruta e CDs e DVDs piratas, no que na época chamavam
de "banca de CD", junto com sua família – esposa e filhos. Além
disso, um colega da mesma idade que a minha havia me dito alguma coisa sobre
ele ter tido algum comportamento estranho com ele. Mas era apenas isso que
sabia, e sabia alguma coisa. Não estava ali tão inocente. No fundo sabia o que
estava acontecendo, estava ativamente participando do jogo, se fosse uma caça,
ambos estavam querendo devorar o outro.
Estava voltando, naquela noite, do culto. E, justo naquele culto, o
pastor Lucas havia falado sobre a perseverança e paciência de Jó mediante a
todo o sofrimento que havia passado. Leu a passagem de primeiro Jó, capítulo
um, versículos de quatro a nove. Sempre gravava o que tinha sido pregado, pois
minha mãe perguntava quando eu chegava em casa. Ela sabia que às vezes fugia do
culto e ia para a pracinha da cidade encontrar meus colegas. Mas, naquele
culto, não; fiquei na igreja o encontro todo. Cantei os hinos do devocional,
ouvi a palavra e recebi a bênção final. Além disso, era um culto de
terça-feira, o Corredor dos Milagres – passávamos por baixo de um tecido de
linho azul-celeste, brilhante, que quatro pessoas seguravam de cada lado, cada
um numa ponta com um pedaço de madeira. O tecido reluzia com as lâmpadas
brancas do teto, e bem no início do corredor, havia um diácono que passava o
óleo ungindo em nossa cabeça. O diácono colocava os dois dedos dentro de um
pequeno bote de metal com uma cor aço envelhecido e passava em nossas testas,
e, enquanto íamos passando por baixo do tecido, o óleo escorria em nossas
cabeças.
Assim, estendíamos nossas mãos e o tocávamos o manto para sermos
abençoados. O culto terminou antes das nove da noite. A igreja ficava na rua ao
lado, mal tive tempo de entrar na rua de casa e a chuva me pegou. Mal tive
tempo de perceber o andamento das coisas, e já estava na sala da casa de
Vitorio. Ele estava sozinho, não poderia fazer ideia do motivo, mas estava. Se
me lembro pouco, ele foi muito direto, perguntando se poderia chupar meu pau.
Não tive muita reação, fiquei calado. E nesse momento o dele já estava para
fora da roupa.
Vitorio se aproximou e passou as mãos na área do meu pau, mesmo por cima
da roupa, movimentos calmos, mas precisos. Não falou nada, apenas ficou naquele
gesto fatídico, ele sabia muito bem o que estava fazendo. Lá fora, a chuva se
tornava uma tempestade, a energia continuava interrompida, e tudo aquilo, novo
e esperado, me deixava muito excitado. Claro que, naquele movimento da vida,
sabia muito bem que gostava de garotos, apesar de ainda namorar garotas, e
mais, que meus desejos, minhas masturbações eram por homens. Porém, ainda
assim, aquilo foi diferente. Talvez a idade de Vitorio, o constrangimento, a
sessão de estar na mão dele, ou até mesmo de estar pecando.
Vitorio me levou para a cozinha da casa dele, ficamos primeiro em pé
ali. A casa era grande, e mesmo assim não entramos em nenhum dos quartos. A
cozinha era mais baixa que o restante da casa, apenas ela era de alvenaria.
Então, começamos a nos beijar, e se eu ainda tinha apenas dezesseis anos, ele
devia ter quase o dobro, pois os filhos dele eram mais velhos que eu. Nem de
longe poderia ser considerado um homem bonito. Talvez um pouco feio, um homem
normal. Ele beijava bem e, naquela altura da vida, havia beijado poucos homens,
e a maioria dos beijos havia sido rápida e muito pontual. Aquele momento foi
diferente, o tempo era nosso e estava à nossa disposição. Nossas roupas foram
caindo no chão, o medo que inicialmente estava sentindo foi desaparecendo, assim
como o nervosismo.
Começava a me sentir bem ao lado daquele homem, procurava a boca dele
tanto quanto ele procurava a minha. Estávamos sem roupas, ele se deitou na mesa
e levantou as pernas, passou bastante cuspe no cu e me disse para meter.
Vitorio era um homem muito grande, segurei na cintura dele e coloquei para
dentro, entrou com muita facilidade. Era minha primeira vez fazendo aquilo, foi
tão estranho e bom. Senti algo muito sensível na cabeça do mal pau, quase como
uma leve cocega, no entanto, diferente. Vitorio foi me explicando o que fazer,
pediu para fazer o movimento para frente e para trás, demorei para pegar o
ritmo. Porém, aos poucos as coisas foram se arrumando, ainda chovia muito lá
fora, as luzes ainda estavam apagadas. Lembro de Vitorio ter colado as mãos na
parede por conta da mesa ficar metendo nela.
Em algum momento fui tomado por algo maior que eu naquele momento, bati
numa velocidade sem parar e, pela primeira vez, gozei. Estávamos sem proteção
alguma, pouco sabia sobre preservativo e, mesmo o pouco que sabia, não me dava
autonomia de usar, fora que era difícil conseguir, havia a vergonha de ir
comprar nas farmácias. Vitorio elogiou minha pica, disse que foi bom. Estávamos
suados e, de alguma forma, felizes.
Guardei em segredo isso, não poderia contar para meus amigos, mesmo que
dissesse que foi com uma mulher, iriam querer saber mais e mais informações.
Então não, teria que ficar apenas comigo tudo aquilo. E fazer sexo com Vitorio
foi se tornando comum, até que um dia começou a sair algo como pus do meu pau,
junto a uma queimação terrível, e eu não sabia como explicar isso para meus
pais. Era uma doença que havia pegado. Tanta coisa aconteceu depois disso.
Marcos Samuel Costa nasceu em Ponta de Pedras/Marajó/Pará. É de origem ribeirinha. Foi finalista do Prêmio Mix Literário em 2021 e 2023. Venceu o Prêmio Dalcidio Jurandir 2019 e foi semifinalista do Prêmio Oceanos 2024. Livros publicados: Dentro de um peixe (Romance, ed. Folheando 2019), O cheiro dos homens (IOEPA 2021), No próximo Verão (poemas, ed. Folheando, 2021), Os abismos (poemas, ed. Folheando, 2022), Os desertos (poemas, ed. Folheando, 2023), Os vulcões (poemas, ed. Folheando, 2024), Sol forte na pele (contos, ed. Folheando, 2023) e Óculos escuros (contos, ed. M.inimalismo, 2024). Além disso, mantém o podcast “Paisagens”. Faz parte da antologia "Homem com homem: poesia homoerótica brasileira no século XXI" com organização de Ricardo Domeneck (ed. Ercolano, 2025).



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