um ensaio e seis poemas de marcos samuel costa

 


"meio-mundo" - by: marcos samuel costa



Primeiro ensaio  

 

“O efeito simbólico exercido pelo discurso (...) consagra um estado das divisões e da visão das divisões”

Pierre Bourdieu

 

Alguns poetas escrevem com a força dos seus olhos. Tornando os dentes a visão tímida e tortuosa de um mar gelado na porta da cozinha, mar que lhe acompanha em rugidos durante a escrita das primeiras versões de um poema que é ainda possibilidade, uma total certeza, pois, perdido, o poema se equipara ao curso natural do gelo que derrete no verão com a chegada do sol e do calor. Quando alguns poetas se colocam diante da possibilidade infesta, ou seja, uma possibilidade contaminada por aspirações e métodos, deveriam saber que nada na terra é tão seco quanto uma palavra que sobra, fora da utilidade, em um texto. Rastros e pequenos poemas coligidos, em suas grandezas de significação, formam o livro de ausências, o que muitos chamam de coletânea ou antologia, em uma vestimenta onde a indumentária é menor que a significância. Essa arte de fazer silêncio, estranha forma de desordem, em que o mapa que guia se faz pergunta sem resposta. Alguns poetas escrevem livros com títulos longos, outros, diante do acaso, abraçam a tempestade e deixam-se tomar pela alegria do engano. Aqui, nesse curto ensaio, temos a busca pela descrição da poética do inoxidável, do plástico, do alumínio, da terra, do alho e dos revestimentos brancos da cozinha e da casa. A palha seca da raiz é um extrato de poema. O poeta, em sua experiência máxima da síntese, não rima. Ao escrever um poema, o poeta se torna um arqueólogo, precisa lidar com as palavras, e as palavras em si são signos e os signos, artefatos arqueológicos que atravessam o tempo-histórico, o signo sintetiza um som em nossa boca, porém, ao escrever o poema e lidar com tanto tempo diante de si, alguns encontram a cegueira, e domado como um tigre de circo, o poeta aprende a soltar fogo dos dedos, como se cultivasse um diminuto sol na carteira de cigarros, uma luz sem bemol e sustenidos, tônica menor com quinta alterada, um som que atravessa as paredes grossas da pele e causa estranhamento. Porém, a grande lição do poema é que não há lição alguma, não adianta que procuremos razão e educação na poética, ela jamais nos dará isso, o poema tem mutilações a oferecer, nele, é possível perder membros, uma vida inteira às vezes.



Anotação 03:

 p/ eli carrias


Isso não é um dia, é apenas um diário sobre o dia, talvez. Ainda há pouco li a coluna de Walter Porto sobre o aumento de venda dos livros digitais (ebook e audiobook) e a queda de venda dos livros físicos. E me lembrei que domingo passado encontrei um amigo na praça, na área que se concentra os sebistas, e eu estava fechando um negócio, comprando de uma moça o livro da Chimamanda Ngozi Adichie, falei para ele que a moça também estava com um livro do Edyr Augusto para vender, os valores estavam ótimos. E depois de guardar o livro, meu amigo virou-se para nós e disse algo como estar evitando livros físicos, pois na sua última mudança, os livros lhe deram muito trabalho. E então lembrei da minha mudança ano passado, mais de sete grandes caixas de livros, todas muito pesadas. Os livros físicos têm esse peso, um peso quase metafísico que aumenta com o tempo. Pois, não é apenas seu peso na gravidade, ele faz um peso nas nossas prioridades. Os livros carregam uma biografia, quanto a coisas, artefatos, encontros entre leitores, autores/as e o tempo. Ontem, conversando com uma amiga, ela me falou da importância de tentar um doutorado fora, e eu lhe falei que as atuais escolhas que fiz me impedem de ir para tão longe, falei que estava arrumando minha biblioteca na minha casa no Marajó. E depois fiquei pensando nesse peso, não o físico, o símbolo, meus livros são capazes de interferir nas minhas escolhas, sei que tem algo de tolo aí, posso pedir ajuda da minha família nos cuidados, guardar o que for possível. Porém, o que me espantou no fim das contas foi a importância que os livros e as leituras têm na minha vida. Ainda ontem, quando estávamos indo para o Restaurante Universitário da UFPA, parei no caminho e comprei dois livros de um sebista que fica em frente ao Centro Acadêmico de Química. Fiquei todo feliz, um deles era do Gonçalo M. Tavares autografado, e o outro do romancista paraense João Bosco Maia, que ainda não tinha. Quando uma amiga me viu chegar com livros, me perguntou onde eu iria colocar tantos livros, e sem pensar, respondi: no meu coração, no meu coração sempre cabe mais um.

 

 

Anotação 04:

 

Isso não é um diário, apenas se comporta como se fosse um diário. Hoje sinto que não tenho o que escrever. E escrever assim mesmo seria um desastre. Mas gosto como a palavra desastre se transforma depois de escrita, uma divisão silábica, uma possibilidade de imagem, descrição. Quase um desenho a lápis. Pela manhã, tomei 200 miligramas de sertralina, 500 miligramas de Gaba Er e tudo está anestesiado. Comi ovos fritos, iogurte e uma xícara de café-com-leite. Estou pronto para viver. Apenas os desastres formam caminhos no corpo.

 


Anotação 05:

 

Ben Lerner matou a poesia, mas todos nós a matamos também. E somos responsáveis por isso. Será que realmente esperamos algum milagre na linguagem? Eu, pelo menos, espero. Sigo matando a poesia, junto com os meus colegas. Por ser tão cedo, numa manhã de domingo, essas anotações ainda são parciais. Acredito que uma tarde na praia poderia mudar tudo e eu poderia reescrever essa anotação, descrever o som das ondas, a suavidade da areia, os acidentes e afogamentos, crianças perdidas e cachorros que correm loucamente e atropelam. Parcialmente considerada morta a poesia.

 


Anotação 06:

 

Anne Carson, além de poeta, deveria ser considerada uma montanha. Altíssima montanha, um monte, onde se é capaz de caminhar por dias e dias. Anne Carson deveria ser considerada uma montanha, e nós, como Leonardo Fróes, deveríamos caminhar nessa montanha. Caminhar como os poetas antigos caminhavam. Li em algum lugar que no grego antigo a língua nascia antes dos raios e que todo deus era como certo polvo cheio de tentáculos. Ou não, devo ter sonhado com essas coisas e anotado dentro desse poema. Anne Carson subiu várias montanhas a fim de ler isoladamente Safo, Safo idem, para ler os astros e os céus, idem, idem, idem, idem, idem... até o primeiro poeta ou primeira poeta, causadores de tantos abismos.

 

 

Anotações 07:

 

Não sabia que Marguerite Duras havia escrito um romance com a temática homoafetiva. Um romance que se passa dentro de um quarto. Ao som das ondas. Ao som do azul. Ao som do mar. “Olhos azuis, Cabelos pretos”, de 1986. Esse romance me lembrou "A morte em Veneza" (1912) de Thomas Mann. Esses hiatos. A iminência do desejo, mas sem consumação. Ficamos inertes na leitura; uma anestesia circula em nosso corpo, sentimos a língua sendo envenenada, aos poucos, morrendo. Porém, o desejo não se cumpre. Quero o desejo e o sexo real. Tenho o desejo de carne-e-osso, um desejo que nunca fica apenas na escrita, mas que se passa no meu corpo também, e não volta para a escrita. Eros é meu deus; o faço de barro e coloco ao lado da cama. O homem amado sempre terá minha língua cheia de ossos.



Marcos Samuel Costa nasceu em Ponta de Pedras/Marajó/Pará. É de origem ribeirinha. Foi finalista do Prêmio Mix Literário em 2021 e 2023. Venceu o Prêmio Dalcidio Jurandir 2019 e foi semifinalista do Prêmio Oceanos 2024. Livros publicados: Dentro de um peixe (Romance, ed. Folheando 2019), O cheiro dos homens (IOEPA 2021), No próximo Verão (poemas, ed. Folheando, 2021), Os abismos (poemas, ed. Folheando, 2022), Os desertos (poemas, ed. Folheando, 2023), Os vulcões (poemas, ed. Folheando, 2024), Sol forte na pele (contos, ed. Folheando, 2023) e Óculos escuros (contos, ed. M.inimalismo, 2024). Além disso, mantém o podcast “Paisagens”. Faz parte da antologia "Homem com homem: poesia homoerótica brasileira no século XXI" com organização de Ricardo Domeneck (ed. Ercolano, 2025).

 



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