Diários: o efeito danoso de se curar

marcos samuel costa, colagem: uma mãe é uma morte sem precisão, 2026


 26 de setembro de 2026 / 27 de setembro de 2026


    Há quatro anos perdia minha mãe. E tem sido um longo processo de retomada da vida que em muitos momentos vacilei. Que vacilo, que ainda sinto bastante medo e me vejo envolto de muita tristeza. Medo de a esquecer mais do que o necessário, de lhe apagar de mim, ao mesmo tempo em que há um tempo de ficar tão envolto na dor que eu perca a capacidade de viver minha própria vida. Porém, tem algo que me consome; desde o ocorrido, não consegui chorar. Não consigo, não é por falta de tristeza, ou excesso dela. Ou algum rancor. Apenas ficou preso, as lágrimas não desceram, parem que se perdem no caminho. O meu terapeuta disse que pode ser por conta das medicações; aliás, ele disse que é muito comum as medicações fazerem isso. E que isso é uma queixa comum entre seus pacientes. Tudo isso veio à tona depois que ouvi o novo álbum do Emicida. O disco começa com um mix de vários áudios da mãe dele enviados pelo WhatsApp, e no fim, ele chora. Aliás, deixa sair de si um imenso pranto de angústia e dor, coisa que queria ser capaz nesse momento.

    Somente sentimentos o quanto faz falta chorar quando essa capacidade desaparece de nós. E não é apenas socialmente falando; tenho certeza de que esperavam que eu chorasse no velório da minha mãe, no enterro. Minha cabeça doeu, meu corpo parecia que a qualquer momento entraria em pânico. Lembro de ter pedido para um amigo, que hoje inclusive não fala mais comigo e tem feito de tudo para me prejudicar, me levar para casa. Não fui capaz de acompanhar até o fim, de ver a terra tomar forma e preencher o vazio do buraco cavado para o caixão. Em casa, sentei no sofá, as janelas estavam abertas, chovia um pouco. Engraçado como sempre choveu nos enterros das pessoas que amei; foi assim no enterro da minha avó Oscarina, do meu amigo Marcel, do meu pai e da minha mãe. Do meu pai fui eu, um irmão por parte paterna e primos de primeiro grau que conduzimos o caixão, e chovia, chovia muito forte. Em casa, como estava dizendo, lembro de ficar olhando para fora; meu coração estava em destroços, mas sem lágrimas, sem choro, sem movimentos. Tudo estava em absurdo confronto contra si mesmo.

    As pessoas foram chegando, houve uma concentração na casa da minha irmã, que é ao lado de casa. E eu fiquei com meus amigos na casa que era dos meus pais, que é a casa em que vivo hoje. Em partes era bom tê-los ali, ao mesmo tempo que ter que fazer sala era horrível. Alguém pediu comida, fizemos café e chocolate-quente, comemos na mesa da minha irmã. E mais e mais pessoas foram chegando. Até a última pessoa ir embora, ficamos fazendo sala, isso por volta das vinte horas. Eu estava exausto, minha irmã também. Naquela noite dormi na casa da minha irmã. Minha cabeça doía demais, porém, nenhuma lágrima.

    Lembro que muito tempo depois, no show da cantora Liniker em Belém, quando ela cantou uma música do Djavan que dizia algo como: “Amar é um deserto e seus temores”. Uma força maior destruiu meu coração e chorei. Lembrei da minha mãe e algumas lágrimas vieram. Mas foi algo isolado e que ainda não se repetiu. Quero culpar os remédios, esse momento de anestesia. Quero profundamente acreditar que isso vai passar. Pois, triste, tristeza foi uma das coisas que mais senti nos últimos anos.


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Marcos Samuel Costa nasceu em Ponta de Pedras/Marajó/Pará. É de origem ribeirinha. Foi finalista do Prêmio Mix Literário em 2021 e 2023. Venceu o Prêmio Dalcidio Jurandir 2019 e foi semifinalista do Prêmio Oceanos 2024. Livros publicados: Dentro de um peixe (Romance, ed. Folheando 2019), O cheiro dos homens (Romance, IOEPA 2021), No próximo Verão (poemas, ed. Folheando, 2021), Os abismos (poemas, ed. Folheando, 2022), Os desertos (poemas, ed. Folheando, 2023), Os vulcões (poemas, ed. Folheando, 2024), Sol forte na pele (contos, ed. Folheando, 2023) e Óculos escuros (contos, ed. M.inimalismo, 2024), Saltos ornamentais (Romance em versos, ed. Primata, 2025), Perfeito conjunto findável (Poemas, ed. Ofícios terrestres, 2026).

 

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