dois poemas de marcos samuel costa

Patti Smith photographed by Edie Steiner, 1976.

 

Patti Smith photographed by Edie Steiner, 1976

 

Os olhos de Patti Smith foram registrados por Edie Steiner, não imagino o que tivesse acontecendo no dia que a fotografia foi feita, o que o fotografo e a fotografada comeram em seus cafés-da-manhã, ou se acordaram bem ou não, se pegaram trânsito, se mandaram mentalmente alguém em casa se foder. Não podemos ter certeza de nada sobre obra e autor, sobre a biografia que circunda em forma de mistério essa arte fotográfica. Li em algum lugar que Patti usa seus diários e sonhos como matéria de criação, então comecei um diário a mão, onde anoto os sonhos que estou tendo a noite. Ainda não usei nada dali. Tudo é muito recente, tem apenas alguns dias que comecei as anotações – mas ela não disse que é tão difícil descrever sonhos, eles são tão ilógicos que é necessário um estranhamento para os narrar. Cada vez mais sinto que uma sombra dela vai recaindo sobre mim, não sinto medo disso, sinto certo desiquilíbrio. Como Steiner que fotografou os olhos de Patti, quero de alguma forma tatear seus rastros no mundo, ler o que ela leu, ter suas referências, seus olhos sei que nunca terei, muito menos sua áurea triste e corruptível, uma aparência sexy, porém, degradante. Não sei se sinto inveja disso, cada um vive no seu mundo e ao seu modo, Patti nunca caminhou em terras alagadas como eu, ou comeu bichos silvestre como comi na infância, isso nos fazem exóticos um para o outro, caso focássemos nas diferenças. Todo labirinto é uma morte. Os olhos guardam milhares deles, e por sorte não os vemos e por isso não morremos dentro deles. No entanto, sempre tem alguma exceção, olhar para esse registro de Patti, para seus olhos, pode ser uma passagem sem volta. Os vulcões do mundo dormem abaixo de montanhas com picos gelados. O ar denso da passagem do tempo registra na matéria um certo diário de calamidades. Vários dias corridos, pássaros sem qualquer força, deixam nas mãos dessa mulher, a certeza que sempre o mundo é um caso perdido, em um sistema onde leituras filosóficas são tão primordiais quanto aos dilemas dos jovens de periferia que cantam hip-hop. Em letras que a sessão térmica sempre ultrapassa os cem graus. O indicativo que os olhos, mesmo imparcialmente, é um polo distante de gelo e lentidão.



Anotação 50:

 

Tive um pesadelo noite passada. Nele, ia até meu jardim e as plantas estavam cortadas. E isso me causava sofrimento. Mesmo sem ter outra pessoa no sonho, apenas a destruição, eu lamentava em voz alta tamanha perda. Meus olhos ficavam úmidos, as lágrimas caíam. Quando acordei de manhã, me lembrei do sonho, corri para ver as minhas plantas. Estavam lá, vivas, adornadas pela luz viva da manhã de verão. Os sonhos nos enganam.


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