Um balé de patos - crônica de marcos samuel costa
Um balé de patos
Acabo de ingressar no
doutorado. Esse acontecimento ainda me assusta muito, a ideia em si, carrego
certo sentimento de inferioridade – no sentido de desmerecimento, vou me
jogando para baixo. E se não tiver cuidado, afundo. Mas estou aprendendo com
isso. Pois bem, com o início das atividades, estou voltando para Belém. Nunca
deixei totalmente a cidade, mas, por conta do meu trabalho, sempre ficava mais
tempo em Ponta de Pedras.
Como havia esquecido
totalmente do que era o trânsito durante os dias de semana, a loucura dos
horários de pico (entradas nas escolas, volta das pessoas para suas casas
depois do trabalho e afins). Aqui minha vida era bastante interiorana, com
direito a casa grande, quintal, jardim e muitos bichos. E é justo deles que
quero falar.
Em meu aniversário de 28
anos, três anos atrás, uma convidada chegou bem antes do horário da festa.
Estava no banho, ouvi me chamarem na porta, ainda de toalha fui lá. Ela estava
com um casal de patos de raça nas mãos, era meu presente de aniversário. Fiquei
bastante atônito, não sabia o que fazer. Não podia devolver ou dizer que não
queria, porém, também não posso negar que fui pego de surpresa. Ela me entregou
os patos e disse que iria se arrumar, depois voltaria para a festa. Creio que
agradeci e entrei com os bichos na mão.
Não tinha onde os
colocar, por sorte havia uns paneiros em casa que eram do meu pai. Coloquei os
patos debaixo deles e um peso por cima. Nisso, fui me arrumar e esperar os
convidados. O aniversário seria em casa mesmo. No outro dia, quando acordei
tarde, com uma ressaca do mal, fui ver os patos e improvisar um lugar para eles
ficarem, pois iria viajar. Ainda iria comemorar meu aniversário em Belém com os
amigos de lá e meu namorado.
Os patos foram ficando,
com algumas semanas não podiam ouvir minha voz quando eu chegava do trabalho,
que gritavam por comida. E sim, eu ia até eles, levava algo e ficava mexendo
com eles. Com quase dois meses deles conosco, soltei para que ficassem no quintal,
e pato não é bicho que nem galinha que volta para dormir no galinheiro, eles
dormiam ali mesmo, no igarapé que passava atrás de casa.
Às seis horas da manhã,
me acordavam gritando por comida, eu brigava com eles e os fazia esperar um
pouco, não podiam se acostumar a mandar em mim. Na hora do almoço, ficavam
perto da janela, como se dissessem: estamos aqui e esperando nosso almoço. No jantar
era a mesma coisa. Na rua também faziam um espetáculo quando subiam para lá,
gritavam, batiam as asas e faziam seus curtos voos – ou que brincando chamava
de balé dos patos, mal saíam do chão, asinhas curtíssimas, especialmente o
pato, a pata ainda voava um pouco.
Eram inseparáveis, e no
círio de Belém do ano seguinte à chegada deles, o macho sumiu, e a pata chegou
pela madrugada gritando loucamente, sem parar. O pato não retornava, demos como
caso perdido, fiquei muito triste. Porém, começamos a ouvir os gritos dele
vindo da outra rua, e eu endossava chamando-o, e a pata também, ele
respondendo. Resultado, creio que o saltaram, a tarde estava no quintal.
Tivemos muitas e muitas histórias juntos, cada dia eu ficava mais apaixonado
por eles.
Mas com minha mudança,
não teve jeito, eles foram viver em um sítio de um conhecido do meu cunhado.
São muitos bichos para cuidar. Mandaram uma foto deles no rio, livres, fiquei
feliz e triste, uma saudade bateu violenta no meu coração.



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