3 poemas de marcos samuel costa

 

Homme nu, se soutenant 1910 - Gouache on paper - 44,7x30,2 - Leopold Museum, Vienna  (recorte), Egon Schiele



Formas geométricas:

 

 

as formas geométricas
tomam conta da arte
de escrever nossos males
 
a palavra “cu” serve muito bem
como título de um poema
 
certa vez
numa entrevista o poeta
Max Martins
disse que o ponto que ele
usa como título de um de seus poemas
significa “cu
 
a curva das letras
semicírculos quase oráculo
 
o cu é uma possibilidade
no poema
 
a noite pode ser essa curva
em possibilidades
 
mais uma noite sonhei
com essas pessoas que um dia foram amigas
 
que hoje cabem na palavra “cu”
 
agora se comportam como inimigas
 
venho tendo visões
 
numa delas
um certo trovão se apresenta
os oráculos do tempo
se movem
 
um certo tipo de tentáculo
me envolve
 
ovos rolam da mesa
quebram no chão
e tudo é infindavelmente branco
apenas branco
 
uma outra verdade se apresenta
uma certa física
 
geometria desocupada
geografias da curva da palavra “cu”
 
sempre os mesmos olhares
nesses sonhos
 
a mesma voz mansa
as vozes que muitas vezes
me pediram ajuda
 
eu estendia as mãos
 
me afogam
 
as mãos
 
os pés
 
manhã de novos acidentes


Catete

 

As ruas inumeráveis
sinais contínuos
híbrido corpo que fala
corpo que gesticula
mimese do polvo
e seus tantos tentáculos
a única fotografia do amado
sem foco, seus testículos.


Cirurgia

 

 

retirar as raízes
                     
------------------- silenciosas dos dentes
 
mortos--------------------------------------
    ------------------- as cores rubras  
 
                -------------------------------------- dos dentes
que tanto doem --------------------------------------
 
       ------------------- sangram - tingem - tigre
as certezas que
                        sufocam --------------------------------------
a ambição de amanhecer-------------------
                     sem receios
ou raios



Marcos Samuel Costa nasceu em Ponta de Pedras/Marajó/Pará. É de origem ribeirinha. Foi finalista do Prêmio Mix Literário em 2021 e 2023. Venceu o Prêmio Dalcidio Jurandir 2019 e foi semifinalista do Prêmio Oceanos 2024. Livros publicados: Dentro de um peixe (Romance, ed. Folheando 2019), O cheiro dos homens (IOEPA 2021), No próximo Verão (poemas, ed. Folheando, 2021), Os abismos (poemas, ed. Folheando, 2022), Os desertos (poemas, ed. Folheando, 2023), Os vulcões (poemas, ed. Folheando, 2024), Sol forte na pele (contos, ed. Folheando, 2023) e Óculos escuros (contos, ed. M.inimalismo, 2024). Além disso, mantém o podcast “Paisagens”. Faz parte da antologia "Homem com homem: poesia homoerótica brasileira no século XXI" com organização de Ricardo Domeneck (ed. Ercolano, 2025).

 

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