Apolo - conto de marcos samuel costa

 

by: marcos samuel costa, 2025

Deus do sexo

 

Mas um golpe terrível, pesado, ressoou à porta, e, como nos sonhos infernais, tive a sensação de levar um golpe de picareta no ventre.

Charles Baudelaire

 

Apolo não perguntou meu nome, e mesmo que tivesse, mentiria. Não acredito que esse realmente seja o seu nome, mentiu. A única certeza, quase falsa, é que não iremos mais nos encontrar. Ainda que me lembre do seu sexo, dele em cima de mim como um pesado touro, talvez eu vá o esquecendo. Lentamente o esquecendo, como se afundasse em um rio, como se águas entrassem nos meus pulmões, roubassem o espaço que doravante pertencia ao ar, encontrasse assim o esquecimento. Como em um afogamento repentino, mas nado muito bem, não seria assim que morreria, quero dizer, minha memória é muito boa.

Desenharei dia após dia tudo que lembro de Apolo, em especial o seu beijo, seu hálito que não era bom e nem ruim, porém, mesmo tendendo para não tão agradável, era muito bom lhe beijar. Imagino que ele tivera trabalhado o dia todo, e, a julgar por suas mãos grossas, em algum trabalho pesado, pela rigidez de seus músculos, alguma atividade que lhe exija força. Não tivera tempo de escorvar os dentes antes de entrar, tomou banho ali mesmo, como eu, usando o sabão liquido do estabelecimento.

Pelas suas mãos grossas, imagino que Apolo tenha muita força. Ele sentou do meu lado, fui eu que puxei assunto, perguntei se ele gostava de ir ali, ele me disse que sim, que gostava, mas que já haviam tido dias melhores, então reformulei minha pergunta, lhe disse se gostava de estar ali, naquele lugar específico Naquele calor, com o vapor queimando delicadamente o rosto, com a escuridão e o aroma de eucalipto. Apolo me disse que não muito, que o seu peito doía, que sentia faltar o ar depois de um momento.

Aroma. Diferente de mim, lhe disse, gostava daquele calor, do ar quente que era ruim até um ponto e depois relaxava. Estávamos apenas nos dois ali. Apolo disse que na outra, a vapor, era pior, eu tive que concordar, pois também demorou um tempo para me acostumar lá.

Os dias vem passando e continuo pensando em Apolo, em seu rosto tão terno e jovial, me disse ter vinte e quatro anos, lhe disse que tinha trinte e cinco, mais de dez anos mais velho. No entanto, não me sentia assim, o cara mais maduro com o mais novo, lhe conduzindo, Apolo sabia onde cada coisa deveria ficar e o que deveria ser feito conforme a dança do amor avançava.

O tempo. O tempo corre, os dias se acumulam, me arrependo e não me arrependo de não ter pego qualquer contato dele, número, e-mail, Instagram, sei lá..., mas é melhor assim, dessa forma, acalmo tudo que venho sentindo. Ele é um homem perdido nessa gigantesca cidade, e será quase impossível encontrá-lo novamente, e mesmo que o encontre, talvez não se lembre de mim. Não lembre como minha língua tocou sua nuca, subiu seu pescoço, passou por sua orelha, acionou seu ouvido e gemeu timidamente próximo de sua máxima audição.

Um velho veio tateando o escuro e sentou ao meu lado; arredei, dessa forma fiquei ao lado de Apolo, brinquei dizendo que a culpa não foi minha. Ele sorriu, sua mão veio até minha coxa, ele agiu mais rápido que eu. Minha mão lhe procurou naquele devir, escuro de prazer. Ele pegou no meu pau que ainda estava molhe, brincou com minhas bolas. Então peguei em seu pau, senti a liberdade, era absurdamente grande. Brinquei dizendo que era grande demais, ele apenas sorriu, sabia muito bem do seu poder.

O primeiro beijo veio, nossos corpos se encontraram naquele escuro. Apolo era mais alto que eu, maior, mais corpulento e nada tímido. Empurrou minha cabeça para seu pau, comecei a lhe chupar. Ele gemia.

O velho ainda do nosso lado começou a passar a mão em mim, então levantei e fiquei de frente com Apolo e ia começar a lhe chupar outra vez; ele disse para irmos para uma cabine. Fomos, entramos na primeira que estava livre. Não havia roupa alguma em nossos corpos; a única coisa que caiu foram as toalhas.

Agora em pé, um em frente ao outro, nos beijamos com muita intensidade. Seus lábios grossos superavam os meus, seus beijos tomavam para si os meus beijos, na ponta dos pés lhe alcançava o rosto.

Apolo me chupou também, engoliu tudo, sabia fazer mágica com a boca Avançamos para o sexo, mas não havia camisinha. Ele perguntou se precisava, disse que sim, e se eu iria pegar lá fora. Disse que sim e fui. Ele disse que me esperaria. Tive certa dúvida que o encontraria ali, mas fui, sem medo. Preparado para o pior. Tanto iria fazer caso ele sumisse, como hoje sumiu.

Peguei as camisinhas e voltei, fiz seu pau ficar duro novamente, ele colocou a camisinha e me penetrou. Ficamos em pé, senti dor e pedi para ele ir com calma. Apolo consentiu e passou a ir com mais calma e carinho, me beijando e passando sua língua pelo meu pescoço. Depois de um tempo estava acostumado com aquele volume todo dentro de mim, a dor chegava quase ao meu ventre, havia firmeza em seus movimentos. O prazer era intenso e real.

Gozamos juntos. Apolo saiu pela porta e não disse nada, não perguntou meu nome, e achei também que assim teria que ser. O vi no chuveiro, um homem negro alto, com um pouco de barriga, um rosto jovem. Não quis ir para o chuveiro para não ter que o encarar. Entrei na sauna a vapor e fiquei ali, ainda sentindo a adrenalina daquele momento tão forte.



Marcos Samuel Costa nasceu em Ponta de Pedras/Marajó/Pará. É de origem ribeirinha. Foi finalista do Prêmio Mix Literário em 2021 e 2023. Venceu o Prêmio Dalcidio Jurandir 2019 e foi semifinalista do Prêmio Oceanos 2024. Livros publicados: Dentro de um peixe (Romance, ed. Folheando 2019), O cheiro dos homens (IOEPA 2021), No próximo Verão (poemas, ed. Folheando, 2021), Os abismos (poemas, ed. Folheando, 2022), Os desertos (poemas, ed. Folheando, 2023), Os vulcões (poemas, ed. Folheando, 2024), Sol forte na pele (contos, ed. Folheando, 2023) e Óculos escuros (contos, ed. M.inimalismo, 2024). Além disso, mantém o podcast “Paisagens”. Faz parte da antologia "Homem com homem: poesia homoerótica brasileira no século XXI" com organização de Ricardo Domeneck (ed. Ercolano, 2025).

 

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