diários: um vulto sem presença

 

by: uma estrada sem noite, marcos samuel costa

15 de setembro de 2026

 

    Não tenho proximidade alguma com estudos da psicanálise. Porém, a cada dia tenho mais certeza de que muita coisa que sinto, quanto às crises de ansiedade, está envolvida com meu subconsciente. Por exemplo, hoje tive uma crise antes de viajar, mesmo vindo para Belém, que é um lugar que eu gosto, amo minha casa aqui e a vida que levo nesse lugar. No entanto, a possibilidade dos encontros indesejados no barco, mesmo que eu não tenha uma real consciência disso, parece que me afeta. Assim foi a noite antes da viagem de ida, igual à de volta. O terminal, que, mesmo distante de sua função poética, não deixa de ser lugar de encontros, desejados ou não. Tive esse estalo quando estava procurando meu assento e pensei: e se uma dessas pessoas pegar a poltrona ao meu lado? Um pensamento que não era em si vazio, mas carregado. E nele, toda uma corrente de mal-estar e adoecimento.

Não foram apenas eles que me causaram esse terrível mal, mas parecem que ajudaram a piorar as coisas. Domingo, depois que terminamos de jantar, eu e uma colega de trabalho, vi o M. junto com a família dele, todos, esposa e filhos. Passei ao lado deles. Ignorei-os como se não os tivesse visto ou simplesmente não os conhecesse. Mesmo assim, fiquei nervoso e meu coração acelerou. Fiquei pensando depois se falaram de mim, se sentem minha falta, se sentem alguma vergonha ao me ver. Queria que tudo isso passasse, que não sentisse nada. Simplesmente seguir, sem esses sinais que vão encrustando na pele como rochas líquidas que abrem feridas e depois se solidificam.

É essa condição humana que me faz humano e me prova que as coisas, as pessoas e os acontecimentos nos afetam e não podem simplesmente ser apagados. E temos que respeitar essa pequena certeza e seus efeitos. Se não sentisse nada, talvez não desse conta de como o passado e o presente se entrelaçam. Quando pensei no Uber pela manhã, sentado no banco de trás, outra vez refleti: essas mesmas pessoas um dia foram tão íntimas quanto a pele do meu corpo. Lembrei que um dia tiveram a chave da minha casa e hoje só consigo desejar que se fodam. Essa extrema mudança também me prova o quanto de humano tenho, talvez o quanto ainda precise de tempo, e esperar com paciência que bata à minha porta e me mostre a nossa primavera. Ou, quem sabe, que traga outro verão e, na pior das possibilidades, outro terrível inverno.



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Marcos Samuel Costa nasceu em Ponta de Pedras/Marajó/Pará. É de origem ribeirinha. Foi finalista do Prêmio Mix Literário em 2021 e 2023. Venceu o Prêmio Dalcidio Jurandir 2019 e foi semifinalista do Prêmio Oceanos 2024. Livros publicados: Dentro de um peixe (Romance, ed. Folheando 2019), O cheiro dos homens (IOEPA 2021), No próximo Verão (poemas, ed. Folheando, 2021), Os abismos (poemas, ed. Folheando, 2022), Os desertos (poemas, ed. Folheando, 2023), Os vulcões (poemas, ed. Folheando, 2024), Sol forte na pele (contos, ed. Folheando, 2023) e Óculos escuros (contos, ed. M.inimalismo, 2024), Saltos ornamentais (ed. Primata, 2025), Perfeito conjunto findável (ed. Ofícios terrestres, 2026). Além disso, mantém o podcast “Paisagens”. Faz parte da antologia "Homem com homem: poesia homoerótica brasileira no século XXI" com organização de Ricardo Domeneck (ed. Ercolano, 2025).

 

Comentários

  1. Gostei. Fiquei sem saber se se trata de um conto, uma relato de vida, uma memória... Mas construção é maravilhosa, como as coisas vão se desenhando.
    Silvaney Silva

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