Incendiava as brumas de brutalidade - marcos samuel costa

by marcos samuel costa

 


Incendiava as brumas de brutalidade

 

“as línguas e as labaredas do inferno distendido numa caminhada visceral de animal cansado, redondo e resoluto, fugindo ao caçador na vontade renovada de ir mais longe, de queimar mais, de causar mais ardor e, exausto, buscar a queima de corpos em perda de ritmia humana, harmonia respirada, mãos que acariciavam cabelos e crânios alegres numa cidade onde, durante séculos, o amor tinha descoberto, entre brumas de brutalidade”

ONKJAKI

 

                 Tudo começou quando voltei das férias. Os sintomas foram se manifestando como capim bravo em terra propícia. Meu pênis começou a arder quando eu ia mijar, e às vezes saía um pus de cor estranha, quase prateado com fundo-falso em tons verdes, com cheiro estranho. Era, até o momento, a pior coisa que via sair de mim mesmo, de dentro de mim, o que me assustava, me arrasava e, como um campo sem cuidados, incendiava. Aquilo ardia, quase não suportava a dor. Dois nódulos incharam nas minhas partes íntimas, não sabia como lidar com aquilo. Entrei em desespero. Era uma fase que estava me masturbando muito e, ao gozar, também ardia. Estava perdido.

Foi uma tarde fatídica aquela quando me dei conta do tamanho do problema, ainda não havia feito nem dezessete anos. Vivia em uma casa evangélica, não tinha namorada, nenhum álibi para aquela doença, nada que pudesse me salvar de consequências piores. Como poderia explicar uma infecção sexual para os meus pais? Não via caminhos para isso. Fiquei na casa da minha irmã naquela tarde, não havia ninguém, ela e o marido estavam trabalhando. Era uma tarde quente e muito clara, um início de agosto após as férias de julho. Liguei o aparelho de DVD e coloquei um disco de um show gospel, pulei para a parte da adoração.

Fiquei ali, em desespero, prostrado e orando, meus joelhos dobrados e meu rosto, o mais humilhante possível, no chão. Pedia desesperado, como uma criança, que aquilo passasse, que eu fosse curado. As tábuas do piso da casa da minha irmã eram enceradas e lisas, meu rosto as beijava, como se beijasse o rosto imortal de um deus mortal, de tempo e madeira. As janelas estavam abertas, o que deixava tudo muito claro, claro como o meu coração queria se mostrar para Deus, porém, naquele momento, eu era escuridão. Chorei, um choro verdadeiro, porém, tão quanto desesperado. Fiquei horas naquilo, a tarde parecia ter ficado mais lenta. Havia aquele silêncio do desconhecido, do meu coração que, acelerado, batia. Depois de orar muito, fui ao banheiro, bati uma punheta, queria saber se arderia, se tinha sido curado. Pedia ao Deus dos milagres extraordinários um milagre tão quanto extraordinário. Deus só poderia estar com raiva de mim, e eu o entendia muito bem. Ria me vendo naquela situação, até eu riria. Depois de foder tantas vezes com um homem casado mais velho, queria a cura imediata de uma infecção sexual... paciência.

Desde a primeira vez que transei com Camilo, muitos outros encontros foram acontecendo. A cada vez mais intenso, mais íntimo, mais firme. Um sexo que crescia com a prática, não sentia nada por ele, era apenas o sexo, mal sentia atração por seu corpo. Camilo tentou me beijar algumas vezes, mas não gostava. Estava ali pelo sexo, para o penetrar, pelo prazer que sentia ao ter o meu pênis entrando no ânus dele. No entanto, era um sexo sem proteção e sem cuidado algum. Fazíamos sexo onde era possível, em becos, na casa dele e até na minha casa, uma única vez. Experimentávamos as posições. E gozar penetrando, ele era muito bom.

As coisas foram piorando, eu sabia do que se tratava, mesmo sem ter que pesquisar, sabia. Os sintomas foram todos os descritos na escola em uma ação sobre prevenção a infecções sexuais, eram os de uma doença chamada gonorreia. Eu sabia, algo me dizia isso, era consciente do sexo sem proteção, da prática ser com um homem mais velho, casado com uma mulher e que, com certeza, transava com outros sem proteção também. Mas o que fazer? Não sabia, os dias corriam, o incômodo aumentava. Não falei para ninguém, nem para qualquer amigo ou primo, guardei apenas para mim. Meus pais não perceberam qualquer mudança em mim, e eu fazia de tudo para ir minimizando o máximo possível. Porém, todas as vezes que aquele pus saía, vinha como uma larva quente, me queimando por completo.

Tinha medo, não sabia como falar com minha mãe e nem o que dizer. Então, me vali dos dois nódulos que incharam em cima do meu pênis, falei que era ali o problema, ali as dores, e mostrei sem mostrar por completo. Estava ali a doença, mas não o verdadeiro adoecimento. Então, fomos procurar ajuda. Hoje me dou conta: minha mãe fingiu que não entendeu, fingiu que não sabia do que se tratava, e eu fingia também tudo. Fomos ao hospital, quem me atendeu foi um vizinho nosso que era técnico de enfermagem. Eu o conhecia, sabia que ele era gay, não assumido, mas gay. Expliquei tudo para ele, o que sentia e o que estava acontecendo. Não demos nomes aos bois.

Lembro do rosto dele, um rosto redondo, velho e envelhecido. Mas que, naquele momento, se mostrou cúmplice. Não sei se ele teve alguma conversa com meus pais sem minha presença, no entanto, para mim não disse nada. Não falou de sexo, de infecção, de gonorreia, de proteção, de cuidados e de nada. Ele apenas sorriu e disse algo vago, como: "A juventude é assim". Pediu para eu deitar na maca, preparou um injetável para me aplicar, não disse nada também. Antes, passou as mãos na minha perna, um toque profundo e nojento. Sabia que aquilo era assédio, porém me calei. Jonathan pediu para olhar os nódulos, mostrei, muito envergonhado, mostrei.

Jonathan olhou de perto, tocou e comentou alguma coisa sobre outro dia eu ser um menino e agora um homem. Então aplicou o injetável e voltei para casa com uma cartela de medicações para tomar. Em poucos dias estava melhor, a ardência foi sumindo, o pus também e estava sendo curado. Deus, os remédios ou Jonathan propulsionaram isso, ou ambos. Minha mãe não disse nada, mas sei que ela sabia, até hoje tenho essa certeza. Semanas depois, o pastor da igreja me chamou em sua casa para conversar. Minha mãe havia conversado com ele. Quando cheguei lá, ele conversou comigo, entre tantas coisas, pediu para eu arrumar um trabalho, nem que fosse numa oficina de bicicleta. Ele e muitos acham isso, que o trabalho destruiria a natureza de um homem que se deita com outros homens, não como se fosse uma mulher, mas como um homem.


Marcos Samuel Costa nasceu em Ponta de Pedras/Marajó/Pará. É de origem ribeirinha. Foi finalista do Prêmio Mix Literário em 2021 e 2023. Venceu o Prêmio Dalcidio Jurandir 2019 e foi semifinalista do Prêmio Oceanos 2024. Livros publicados: Dentro de um peixe (Romance, ed. Folheando 2019), O cheiro dos homens (IOEPA 2021), No próximo Verão (poemas, ed. Folheando, 2021), Os abismos (poemas, ed. Folheando, 2022), Os desertos (poemas, ed. Folheando, 2023), Os vulcões (poemas, ed. Folheando, 2024), Sol forte na pele (contos, ed. Folheando, 2023) e Óculos escuros (contos, ed. M.inimalismo, 2024). Além disso, mantém o podcast “Paisagens”. Faz parte da antologia "Homem com homem: poesia homoerótica brasileira no século XXI" com organização de Ricardo Domeneck (ed. Ercolano, 2025).

 

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