um conto de marcos samuel costa
Faíscas que se saltavam
A densidade não estava apenas na temperatura entre as paredes, provocada
pela quentura da tarde e pelas labaredas da sauna, muito menos nos corpos que
tendiam à ardência; estava, na verdade, em tudo, em todos, na junção. Em cada
parte dos corpos que se envolviam com o extremo e o passivo do prazer, nas
faíscas que se saltavam, e em cada um que ali se deliciava no sexo, do
fragmento da vida em sequência – cena após cena, toque a toque, nem tão
profundo, muito menos raso, que explodia.
Gustavo chegou cedo, ainda antes das quatro horas da tarde. Deixou suas
coisas no guarda-volume, entrou, tomou um banho e ficou andando no espaço.
Ainda era cedo, poucas pessoas haviam chegado, porém, era sábado, e os sábados
ali sempre eram quentes. No entanto, a hora corria e nada mudava. Então ele
entrou pelo corredor, desvencilhou-se de um velho que quis lhe segurar quase
que à força. Foi quando um cara mais alto o pressionou contra um cara negro que
estava no corredor. Os dois estavam quase de frente um para o outro, em um flerte
que não avançava, uma certa brincadeira demorada demais. O cara mais
alto disse algo sobre fazer um sanduíche e o Gustavo ser o recheio, isso, ao pé
do ouvido de Gustavo; e lhe deu uma leve mordida na ponta da orelha. As feições
do cara negro não indicavam se ele havia gostado ou não, mas sorriu, o que
deixou o clima melhor.
Gustavo pensou que o cara negro não estava gostando, por isso se
desvencilhou de entre aqueles dois desconhecidos, disse para o cara que não era
sua culpa e sorriu, e para o cara mais alto que ele o faria apanhar ali, e riu.
Ao se desvencilhar de entre os dois, parou mais ao lado. Haviam outros caras no
corredor, mas não deu importância para eles. Gustavo ainda não havia transado
com ninguém; apenas um coroa o havia mamado um pouco antes. Não viu ali uma
certeza ou incerteza de curtição. Esperou.
O corredor era escuro, mas, como ainda era cedo e lá fora não havia
anoitecido, por algumas frestas entravam lampejos de luz que clareavam o local,
assim, podiam ver os rostos um dos outros. Olhou para os dois, que estavam se
beijando, e perguntou se não poderia rolar um beijo triplo. Nenhum dos
dois respondeu, continuaram a se beijar, porém, mesmo assim, Gustavo se
aproximou, levou os lábios até eles dois, e o cara negro o envolveu no beijo.
Os três começaram a se beijar; ora Gustavo beijava mais um, ora outro, e os
dois ao mesmo tempo. Fecharam o corredor naquele beijo triplo.
Gustavo estava apenas de toalha; a sua estava dobrada em duas partes, o
que a fazia ficar ainda mais curta. Os dois caras também estavam apenas de
toalha; eram toalhas brancas que, naquele semiescuro, pareciam prateadas. O
cara mais alto deu a ideia de irem para uma salinha ao lado, pois era mais
espaçosa que o corredor. Pois não podiam ficar fechando a passagem ali. Foram,
ali continuaram a sua orgia gostosa e intensa. Não havia tempo de
perguntar nomes, de saber endereços, preferências O tempo era excessivamente
aquele, apenas aquele, e deveria ser consumado ali. Os nomes ficam para a vida
lá fora, onde a necessidade sexual não é o mais importante, para as
formalidades, para o ponto eletrônico do trabalho, para a família, filhos e
esposas.
Passaram bastante tempo sozinhos na salinha; um ou outro cara passava,
até olhava um pouco mais, porém ia embora. O cara mais alto tinha uma cara de
safado, suas feições eram de tesão, tinha um bigode fino e os cabelos lisos, um
pouco ralos, uma correntinha no pescoço, com certeza passava dos trinta anos. O
seu pau era torto para o lado, nem grande e nem pequeno, nem fino e nem grosso,
ideal, rosada e bonita. Sua barriga era bastante vantajosa, sua bunda
magra. Era um homem bonito de rosto, sexual e atraente, mesmo sendo um tanto
feio de corpo. O cara negro era mais baixo que eles dois, cabelo curtíssimo,
lábios grossos, barriga definida e o corpo todo malhado. O seu pau era mais
grosso, bastante volumoso e ficava o tempo todo ereto. Todos os três pareciam
estar se divertindo e gostando daquilo. Num certo momento, cada um chupou um
lado do peito de Gustavo. Ele começou a gemer alto, o que fez os dois
continuarem com mais vontade ainda, mordendo e chupando, moderando entre forte
e leve.
O cara mais alto baixou a cabeça de Gustavo até seu pau; Gustavo começou
a lhe chupar. O cara negro também colocou o seu pau próximo à boca dele. Assim,
ia chupando um e depois o outro, passando a cabeça do pau de um na cabeça do
pau do outro, e, enquanto Gustavo lhes chupava, eles se beijavam. Gustavo subiu
e, junto com o cara negro, chuparam o peito do mais alto, que também gemeu e os
chamava de safados.
Nesse momento, os três já estavam sem toalhas e completamente pelados
naquela salinha, que há tempos atrás fora uma área de armário, e antes uma
pequena sala de vídeos. Os caras podiam bater punheta e serem chupados ali. Em
cada uma das portas havia uma cortina pesada que impedia a entrada de luz. Na
escuridão, seus corpos poderiam ser uníssonos, envoltos em prazer e demora. O
cara mais alto deu a ideia de irem para uma cabine. Quando entraram, fecharam a
porta e acenderam a luz da cabine, uma pequena luminária de tom amarelo, mas
fraco. Ele deu a ideia de que o cara negro comesse Gustavo e ele assistiria.
Gustavo ainda tentou dizer que não gostava de ser passivo, mas não era o
momento, não havia mais volta.
Porém, antes de qualquer penetração, continuaram se pegando. Enquanto o
cara mais alto beijava o negro, ele foi chupar o cu do primeiro; o outro lhe
ajudava abrindo as nádegas do outro. Gustavo meteu sua boca ali, passava a
língua na entrada do cu dele. Quando Gustavo levantou, ele disse novamente que
queria vê-lo dando para o cara negro. Ele ainda ficou meio receoso, mas não via
como fugir. O cara negro disse que não dava e o mais alto queria apenas olhar.
Gustavo ficou de frente para o mais alto e o negro atrás dele, colocou a
camisinha e ambos passaram bastante cuspe. O cara negro foi aos poucos metendo;
Gustavo sentiu bastante dor e disse para ele ir devagar. Enquanto o cara negro
ia aos poucos lhe penetrando, ele beijava o mais alto, pediu para o mais alto
lhe chupar. E, enquanto era socado no cu, levava uma mamada, sentiu vontade de
gozar, mas segurou. Gustavo abraçava e passava a cabeça no seu peito do cara
mais alto, enquanto gemia alto, e cada vez mais alto. O que deixava o cara
negro cada vez mais excitado. Até que gemeu como se tivesse grunhido, era o
aviso do seu coito, que gozaria a qualquer momento e que aquilo estava muito
bom.
Se limparam antes de sair, falando algo sobre uma próxima vez, e Gustavo
disse que, se tiver próxima, ele irá querer ser ativo e comer o cara mais alto,
que responde brincando que será bom se tiver uma próxima vez. Ainda se
encontraram pelos corredores, porém, ninguém perguntou o nome de ninguém, nem
disse mais nada, estavam à busca da próxima aventura, por isso estavam ali.
Marcos Samuel Costa nasceu em Ponta de Pedras/Marajó/Pará. É de origem ribeirinha. Foi finalista do Prêmio Mix Literário em 2021 e 2023. Venceu o Prêmio Dalcidio Jurandir 2019 e foi semifinalista do Prêmio Oceanos 2024. Livros publicados: Dentro de um peixe (Romance, ed. Folheando 2019), O cheiro dos homens (IOEPA 2021), No próximo Verão (poemas, ed. Folheando, 2021), Os abismos (poemas, ed. Folheando, 2022), Os desertos (poemas, ed. Folheando, 2023), Os vulcões (poemas, ed. Folheando, 2024), Sol forte na pele (contos, ed. Folheando, 2023) e Óculos escuros (contos, ed. M.inimalismo, 2024). Além disso, mantém o podcast “Paisagens”. Faz parte da antologia "Homem com homem: poesia homoerótica brasileira no século XXI" com organização de Ricardo Domeneck (ed. Ercolano, 2025).



Mds que tesão
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