No mesmo ritmo

 


Quando estava chegando no trabalho ontem, vi Osman e sua esposa, ele estava deixando-a no trabalho, trabalhamos próximo, eu e ela. Fatima deu um beijo de despedida nele e entrou. Andamos pela mesma via, em sentido contrário, virei o rosto para o outro lado, devo imaginar que ele também, pensei que uma saudação de bom-dia não custaria nada. Porém, para nós seria custoso demais, mexeria com nossos egos, com nossas mágoas, pelo menos com a minha, pois, ano passado ainda tentei alguma amistosidade e a resposta dele foi a pior, muito alterado, disse algo como: “Está tirando com minha cara, caralho? Queres dar uma de sonso? Falaste mal de mim, agora vem falar comigo? Vai te foder.”

Via aquilo e não conseguia acreditar, estava diante de uma pessoa que nunca havia conhecido, não se parecia com o Osman que conheci a vida inteira, apenas disse algo como: “Tentei, fiz minha parte, esse peso não carrego”. Creio que serão nossas últimas palavras. Osman foi meu melhor amigo desde criança. Quando nos conhecemos, era verão, estávamos brincando no fim de tarde. Ele gaguejava um pouco ao falar, isso me chamou atenção. Nos conhecemos por meio de um primo em comum, um primo que era mais primo dele do que meu, mais amigo dele do que meu. No entanto, as coisas se inverteram, com pouco tempo, eu e Osman íamos nos tornando quase inseparáveis, pois estudávamos na mesma escola e, com a mudança dele, também morávamos na mesma rua.

Lembro com nitidez a primeira imagem que tenho dele, estávamos aos fundos da casa do Lucas. Por algum motivo, a brincadeira havia parado e estávamos conversando. A casa de Osman era quase ao lado da casa de Lucas, suas mães eram irmãs. Uma memória que, mesmo permanecendo com nitidez, revela pouquíssimo do presente, aliás, não reverbera mais sobre o presente. Apenas essa imagem ficou, não lembro como fui brincar nesse dia com o Lucas, nem a hora que voltei para casa e muito menos quando falei de novo com Osman.

Quando não nos víamos na escola, nos encontrávamos na rua, geralmente nas tardes para jogar bola, a escola era pelas manhãs. Osman era um pouco mais velho, algo em torno de dois anos apenas, mas parecíamos ter uma mentalidade muito parecida. Porém, eu sempre fui mais alto que ele, e ele mais forte que eu. Ele era melhor na bola, e eu em me comunicar. Ele tinha pais separados e vários irmãos, eu morava com minha família e apenas um irmão. Mas, na época, nem pensávamos sobre isso, nem falávamos sobre isso. Para ser sincero, não consigo recordar sobre o que conversamos, mas devíamos falar coisas de meninos naquela idade.

Osman também mandava bem no videogame, ao contrário de mim, que parecia que não tinha a menor capacidade para videogame e, mais tarde, para jogos digitais. Fora isso, entramos juntos na escolinha de vôlei, jogamos muitos anos, mas ele também praticava futsal, jogava os campeonatos da cidade, coisa que nunca fiz. Quando todos os outros garotos da escola me chamavam de gay, ele parecia ignorar isso ou não se importar, apesar de nunca falarmos sobre. Osman sempre permanência como meu melhor amigo, e eu o ajudava nas atividades da escola. Nunca soube se era por naturalidade ou por pura falta de interesse.

A última vez que nos falamos, ele veio em casa, ficamos na sala tomando cerveja e ouvindo música, conversamos bastante. Também não lembro do que falamos, mas sempre havia assunto entre nós, parecia que era a sina de melhores amigos, sempre ter assuntos para serem conversados. Foram inúmeras as ocasiões em que bebemos, isso começou ainda na adolescência, quando íamos aos aniversários dos colegas e bebíamos escondido, nunca para ficar porre, nem por acharmos tão bom assim. O gosto da cerveja beirava o insuportável, era como se fizesse parte de um rito, ou uma necessidade de afirmação. Tanto ele quanto eu éramos evangélicos, então muita coisa fazíamos escondido. Osman experimentou maconha, mas eu não quis, tive medo, as palestras da escola me fizeram ter medo de drogas. Nisso, ele aprendeu a tragar muito cedo, mas isso de fumar maconha durou muito pouco, rápido ele esqueceu. Mas, com isso, ele aprendeu a tragar primeiro que eu, coisa que fui aprender apenas na faculdade, com muita dificuldade, ainda mais que uma colega estava me ensinando com os Malboro dela.

Bebemos o suficiente para deixar nossas cabeças leves, sempre ficamos no limiar, um limiar entre melhores amigos e amigos que um dia se beijaram na boca e acabaram fodendo, mas sempre ficamos com a amizade. E eu queria o beijo e que ele me fodesse, às vezes ficava dividido. Houve umas ocasiões em que as coisas ficaram confusas – pelo menos na minha cabeça. Como em uma vez em que Osman me passou um biscoito na boca, e senti os lábios úmidos dele nos meus, no mesmo momento fiquei excitado. Algo tremeu dentro de mim, tive que calar isso por muito tempo, pois ele a cada dia demonstrava mais interesse por garotas, ao contrário de mim.

Numa outra vez, estávamos na casa de um colega bebendo, e já havíamos exagerado muito nas misturas, várias bebidas baratas, quando as coisas começaram a ficar mais quentes Pois havia homens e mulheres no local, e todo mundo ficou se pegando. Osman colocou o pau duro para fora; e novamente algo aconteceu entre nós, e mesmo que breve, com o pau para fora, eu ao seu lado, não teve outra saída, deixou eu pegar, era grande e grosso, combinava com ele, que estava a cada dia se tornando um homem maior, mais bruto, feio, atraente. Porém, como nas tantas outras vezes, isso também foi esquecido e nunca mais se tocou no assunto.

Na escola, colocava a minha cadeira do lado da dele em todas as aulas, éramos assim, melhores amigos. Ouvi algumas vezes os professores comentarem em tons meio suspeitos algo como: “não se separaram mesmo”. Mas, para mim, era algo mais profundo, apesar de às vezes desejá-lo, também o tinha como meu melhor amigo. Os anos foram se passando, passando. Houve oportunidades de termos ficado mais próximos e mais afastados, passei alguns anos fora, e foram raras as vezes que nos falamos. Nutri certa mágoa, pois ele simplesmente não fazia contato algum. Mas a vida nova trouxe tantas novas coisas que tive que esquecer um pouco Osman e nossa amizade, em parte por mágoa.  

Ainda no ensino médio, ele namorou uma garota que o ajudei a conhecer. Namoraram por anos, ela não gostava da nossa amizade. Perto dela, quase não nos falávamos, mantínhamos alguma distância. Pelo menos nisso ele era sincero, que ela não gostava especialmente de mim, entre os vários amigos, o amigo gay.

Foram assim, anos e anos, sempre a amizade no limite, seja do fim, seja de se perder, seja de ter outros tons. Nunca fui completamente apaixonado por Osman, mas sentia uma atração confusa, sempre achei que um dia as coisas enfim aconteceriam. Nunca aconteceu, creio que nunca acontecerá. Hoje ele passa perto de mim e finge que não me conhece, faço o mesmo. Como poderíamos, não é mesmo? Ainda mais que, depois daquela noite em que exageramos no álcool, nossas línguas vacilaram e, enfim, falaram no mesmo ritmo.


Marcos Samuel Costa nasceu em Ponta de Pedras/Marajó/Pará. É de origem ribeirinha. Foi finalista do Prêmio Mix Literário em 2021 e 2023. Venceu o Prêmio Dalcidio Jurandir 2019 e foi semifinalista do Prêmio Oceanos 2024. Livros publicados: Dentro de um peixe (Romance, ed. Folheando 2019), O cheiro dos homens (IOEPA 2021), No próximo Verão (poemas, ed. Folheando, 2021), Os abismos (poemas, ed. Folheando, 2022), Os desertos (poemas, ed. Folheando, 2023), Os vulcões (poemas, ed. Folheando, 2024), Sol forte na pele (contos, ed. Folheando, 2023) e Óculos escuros (contos, ed. M.inimalismo, 2024). Além disso, mantém o podcast “Paisagens”. Faz parte da antologia "Homem com homem: poesia homoerótica brasileira no século XXI" com organização de Ricardo Domeneck (ed. Ercolano, 2025).

 

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